quinta-feira, julho 16

Auto-piedade


Quase todos nós caímos, por vezes, na armadilha da auto-piedade. Mas algumas pessoas não conseguem se libertar dela. Aqueles que ficam com pena de si mesmos são facilmente reconhecíveis. Contam, com riquezas de detalhes, episódios tristes e dolorosos de suas vidas, guardados como se fossem recordações dignas de um álbum.

O que dá pena não são as situações sofridas - porque sofrimento todos nós vivemos - mas a dificuldade que estas pessoas apresentam em superar os traumas ocorridos e deixá-los no passado. É lamentável que elas se disponham a viver colecionando dores, sofrimentos e - principalmente - rancores e amarguras. Estas lembranças só servem para aumentar o peso da existência.

O maior perigo dessas atitudes reside no fato de que toda a vida da pessoa fica contaminada pelos acontecimentos antigos e tudo de novo que acontece é avaliado como se fosse uma repetição do passado. As pessoas que foram traídas passam a esperar, de cada pessoa que delas se aproxima, uma nova traição. Aqueles que foram agredidos vêem uma agressão em cada nova situação de vida, e assim por diante.

Além disso, quando cultivamos a atitude de ter pena de nós mesmos estamos nos colocando, voluntariamente, em uma situação de fragilidade e inferioridade. Seria muito melhor fazer um esforço para virar a página e deixar o passado se desfazer na poeira do tempo.

É preferível tentarmos esquecer o passado e nos esforçarmos para conseguir nos libertar dos sentimentos negativos. Aprendermos quais são os nossos ideais e lutarmos para conquistá-los. Precisamos estabeler projetos de vida que sejam possíveis de serem realizados, e nos ligarmos neles e em sua execução. Isso é muito mais positivo do que ficarmos vitimados por infortúnios passados e por isso negarmos, a nós mesmos, a possibilidade de conquistar a felicidade.

A vida é difícil para todos nós. Saber disso nos ajuda, porque nos poupa da auto-piedade. Ter pena de si mesmo é uma viagem que não leva a lugar nenhum. Justificar a auto-piedade toma um tempo enorme na construção de argumentos e motivos para nos entristecermos com uma coisa absolutamente natural: nossas dificuldades. Não vale a pena perder tempo se queixando dos obstáculos que têm de ser superados, para sobreviver e para crescer.

É melhor ter pena dos outros e tentar ajudar os que estão próximos e precisam de uma mão amiga, de um sorriso de encorajamento e de um abraço de conforto. E usar sempre nossas melhores qualidades para resolver problemas, que
são as capacidades de amar, de tolerar e de rir.

Muitas pessoas vivem a se queixar de suas condições desfavoráveis, culpando as circunstâncias por suas dificuldades ou fracassos. As pessoas que se dão bem no mundo são aquelas que saem em busca de condições favoráveis e quando não as encontram se esforçam por criá-las. Quem acreditar que a vida é um jogo de sorte, vai perder sempre. A questão não é receber boas cartas, mas usar bem
as que nos chegam às mãos.

Luiz Alberto Py
Médico psiquiatra e psicanalista






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